26.9.12

O que você achou?




Por Carol Grechi

Não adianta, as palavras curtir e compartilhar já viraram expressões que usamos fora da internet, tamanha freqüência com que precisamos delas pra nos expressar.

Quando alguém vem compartilhar algo comigo pessoalmente, numa conversa, concentro toda minha atenção no que a pessoa está dizendo. Aquele teu amigo que gosta muito de determinado assunto e vem todo empolgado te contar algo de novo sobre aquilo... 

Às vezes ele pergunta “sabe aquele filme? Aquele ator? Aquela banda?”
Bah! Quase sempre sou sincera e, se não sei do que ele tá falando, digo que realmente não sei do que ele tá falando. Aí a conversa acaba patinando numa explicação breve pra ver se você lembra logo e pra pessoa seguir com a linha de raciocínio.

 Mas há aqueles momentos em que a pessoa está tão empolgada, que abre um sorriso e pergunta “tu lembra aquele filme tal tal tal?”, e eu simplesmente não sou capaz de desfazer aquela empolgação com um “não”.

Eu confesso. Há ocasiões em que não tenho a menor idéia do que a pessoa ta falando, mas digo “ahã” só pra ela continuar me contando sobre o assunto com a mesma empolgação. Não dá, não consigo interromper aquele falatório tão feliz. Azar o meu se eu não sacar que o ator é o daquele filme ou não, prefiro continuar apenas ouvindo com atenção até a pessoa chegar num ponto final. Aí tento pescar algumas referências como quem não quer nada, pra ver se me acho no assunto... Curtiu? Unlike?

Outra coisa que lembrei agora e tem a ver com isso. Certa vez um amigo me disse que quando ele pergunta a opinião de algo a uma pessoa, um livro, por exemplo, e ela diz apenas “legal, muito massa, etc...”, pra ele é o mesmo que a pessoa não ter lido. Não ter uma opinião definida pra discutir depois sobre o assunto, pra ele isso é empobrecedor.

Eu discordo. No caso de livros e filmes. Há aqueles que te fazem ficar pensativo após a última página/cena. Se te fizeram continuar pensando sobre o assunto após o término, aí sim, teve alguma mensagem que foi importante pra ti, algo com que você se identificou e que gerou toda uma cadeia de pensamentos e opiniões sobre aquele assunto.

Mas há casos em que não. Pelo menos comigo é assim.

O processo de leitura pode ser interessante e prazeroso, mas, nem sempre tenho vontade de recapitular tudo o que li pra definir minha opinião sobre aquilo. Geralmente isso vai acontecendo durante a leitura, mas eu resmungo pra mim mesma quando algo me chama atenção. Não saio escrevendo resenhas profundas a cada ponto interessante.

Consegui fazer uma lista com os livros que li até hoje, comecei na escola e consegui ir atualizando com as leituras que se seguiram.

Dentre os cento e poucos, há títulos que já engatilham minha memória sobre o assunto do livro. Mas há alguns que eu sei que gostei, pois me trazem recordações boas, mas não lembro exatamente do que falam.

Li Dostoiévski pela fama do autor e achei o livro “Notas do subterrâneo” recheado de um humor sarcástico que me agradou. Achei muito louco! Aí quase ouço esse meu amigo falando “ta, mas, e o que mais? Qual foi a mensagem que ele te passou?” e tenho que responder simplesmente pra essa voz fantasma: não lembro. Lembro que achei legal, mas, só. Nenhum discurso filosófico/político. Eu gostei bastante porque me identifiquei com algumas coisas, mas, só.

Minha memória é curta pra livros, acho que depois de uns dois dias eu arquivo tudo que li numa pasta lá fundão do cérebro. Quando eu leio o mesmo livro pela segunda vez (depois de certo tempo da primeira leitura),  tenho noção do básico que vou encontrar, mas o geral já foi pra lixeira. É como se estivesse aprendendo tudo de novo.

O livro Cem anos de solidão, do Gabriel García Márquez, é um que eu adoro. Estou sempre lendo. Eu sei o enredo da história mais ou menos, mas os detalhes sempre me encantam como se fossem novidade.

Mas me recordo que quando eu meu namorado vimos o filme “Um ensaio sobre a cegueira” no cinema, saímos conversando do Criciúma Shopping e caminhamos do bairro Próspera até o centro sem nem perceber (é uma boa "pernada"!), de tão envolvidos na conversa sobre o filme. Rendeu, até hoje rende. Sempre tenho observações a fazer sobre essa história, por mais vezes que eu a assista.

O próprio fato de eu ser jornalista já traz aquele velho estigma de “formadora de opinião”.  Grande ironia, não?

O que tu acha sobre isso?


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(usei essa pergunta pra encerrar o texto pela gracinha irônica, mas acredito que seguindo meu discurso, a pergunta ecoará eternamente pelo Quarto)

25.9.12

Eu não sei desfilar




Por Carol Grechi

Sabe aquelas meninas que quando estão sentadas são capazes de se levantar com a leveza de uma pluma e de caminhar com a desenvoltura e delicadeza de uma princesa desfilando? Essa não sou eu.

Meu jeito de caminhar é engraçado, no mínimo estranho. Meio que dando uns pulinhos mínimos. Eu sei, eu sei. Se tenho consciência disso por que não ando diferente? Porque quando tento me policiar parece que estou andando segurando um pum (viu, sou delicadinha o suficiente pra escrever pum ao invés de peido).

Meu amigo de trabalho na gravadora da rádio certa vez disse que sou tão legal que sou tipo “um cara com cabelo”. Até hoje não decidi se fico feliz ou não com o que me pareceu um elogio.

Cresci com os pés sentindo o chão, usando AllStar desde a infância. Se uso um tênis com solado diferente já estranho... Agora vocês, queridos leitores (que agora são dois, o Ricardo Chicuta – da casa, e o inspirador literário, Renam Meinem), imaginem então um salto alto. Tenho meu lado atriz, sei manter a pose num salto. Por aproximadamente 20 minutos. Passou disso e meus pés se rebelam gritando de desconforto e eu sumo com os saltos rapidinho.

O que me lembra o vestido cor-de-rosa. Eu tenho um vestido cor-de-rosa. Daqueles de festa. Fiquei toda feliz quando o encontrei, me achei uma princesa no provador da loja! Mas depois que me vi em fotos com ele, nossa relação estremeceu. Não gostei. Não mesmo. Tá errado, tá estranho. Princesa fajuta. Barbie de 1,99.

Eu simplesmente não entendo as meninas que estão sempre lindas. Elas existem! Já vi alguns exemplares... Podem ter acabado de sair do meio do furacão Catarina, do meio de um show lotado e abafado... Mas estão lá, sempre com cabelo impecável e maquiagem estática. Do mesmo jeito que saíram de casa. Podem amarrar o cabelo, dar um nó, raspar a cabeça, sair de pijama, que estarão sempre lindas.

Só podem ser alienígenas...

E agora chego ao meu ponto contraditório. Sou sensível até dizer chega. E mais um pouco ainda. Na hora da fabricação esbarraram nos jarros com as emoções e sensibilidades e eles caíram inteirinhos no caldeirão com meu nome.

(me imaginei sendo fabricada por uma bruxa, então? Derivada do quê? Uma sopa? Que viagem...).

Sou uma menininha muito sensível.

Só porque não faço as unhas toda semana? (cutículas de filme de terror, enxergam as manicures e começam a sangrar).

Só porque não uso calça coladinha? (eu ia falar calça knorr, mas há a possibilidade de meus dois leitores não sacarem a referência). Até comprei uma calça dessas pra caminhar no Parque das Nações, tá ali na gaveta. (A gaveta tá caminhando que é uma beleza, já perdeu 3 kg).

Falo besteira sim, falo que é massa pra ****lho! Falo que é *oda! Ouço rock, quero aprender a tocar a maioria dos instrumentos que vejo, uso Allstar, geralmente meninos tem mais assuntos em comum comigo do que meninas, tenho mais amigos do que amigas...

Choro de saudade, abraço minha almofadinha de estimação antes de dormir, quero fazer aula de dança de salão, me sinto pelada sem meus pequenos brinquinhos nas orelhas, quando encontro a caixa das Barbies me pego trocando as roupinhas - a maioria eu que fiz, pobrezinhas das Barbies...

Mas eu sei onde tudo isso começou. One simple idea. Hoje é tudo muito claro.

Eu tinha 12 anos e cortei meu cabelo bem curtinho, porque queria igual ao da Xuxa.

Aí estava brincando na frente de casa quando uma senhora parou pra conversar com a prima da minha mãe. Então a ouvi perguntar: “e esse gordinho, de quem é?”

Reparei que ela tava olhando pra mim.
Sério.

Hoje eu diria assim pra véia: Com esse bigode aí tu é mais guri que eu.

Mas na época foi algo assim: “Eu sou menina! Não tá vendo a tiara, os brincos e a blusa rosa??”

Ela resmungou algo sobre o cabelo. Pelo tamanho do coque debulhado que ela carregava no topo da cabeça e pelo saiote infinito, agora eu entendo. Na época não.

A véia me confundiu com um guri! VSF! Chorei a tarde toda de raiva, rezando pro meu cabelo crescer durante a noite, enquanto eu dormia.

Vale dizer também que naquela mesma época teve festa junina na escola e eu tive uma crise capilar nervosa severa, pois com aquele comprimento de cabelo não poderia ir pra festinha usando trancinhas. #XuxaFail #Morrediabo

Então, sou legal tipo um cara com cabelo.
E sensível tipo uma menininha de 6 anos.

Não vivo sem meu shampoo, meu condicionador e meu secador de cabelos.
Não vivo sem meu aparelho de mp3.
Não vivo sem meu creme para o rosto, para as mãos e minhas maquiagens.
Não vivo sem minha calça jeans. (No singular mesmo, emagreci e só sobrou uma que me serve).

Último Allstar adquirido: 97 reais. (há meio ano, mais ou menos)
Quantidade de perfumes e cremes (em uso) dentro do guarda-roupas: 15
Gasto em livros e revistas este mês: em média 20 reais.
Gasto em salão de beleza este mês: 0 reais.

Fazer auto-análise de graça no blog: Não tem preço.





Ah, vá! Que é de graça e não tem preço?! Não, né?! Não vai acabar o texto com esse clichezão de propaganda de cartão de crédito, né? Tanto mimimi pra acabar assim? Porra, tu já escreveu melhor hein?!

É que fazia tempo que não escrevia... Sempre me perco nos finais... Não fala assim... Não fala... Assim... Eu sempre me esforço e... E... Daí às vezes não dá... Aí... Aí... buáááááááá... Sua insensível...

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Agora sim.

24.9.12

Volte sempre




Por Carol Grechi

Até onde minha memória alcança, sempre gostei de viajar de ônibus. Não me refiro ao circular de Novo Hamburgo, os amarelinhos de Criciúma ou a Viação Cidade - Arroio do Silva/Araranguá. Falo de pegar um ônibus pra outro estado ou então, aqui mesmo em SC, só que pra mais longe... Sozinha, então... Bah! Mais expectativa ainda por entregar a passagem, subir o primeiro degrau e procurar o meu lugar entre os numerozinhos luminosos.

Umas boas horas de música garantidas no mp3 (sim, ainda não tenho smartphone, tragam os pregos e a cruz) e um lugar na janela. Com isso viajo bem mais que os km podem contar.

Lembro de vir pra Santa Catarina de ônibus, eu e minha mãe, nas férias de verão.

Como as pilhas do walkman não duravam o suficiente para repetir a fita k7 dos Mamonas Assassinas, a pobre da Dona Neusa vinha jogando “mundo animal” comigo o caminho todo (aquele jogo em que temos que falar nomes de animais iniciados com determinada letra). Imagino a paciência dos demais no ônibus ouvindo o duelo interminável. Eu hoje me mandaria dormir no segundo “muuuundo a ni... maal!”. Mentira. Me irrito em silêncio. Me livraria do vozerio infantil apenas virando pro lado e aumentando o volume nos meus fones de ouvido.

Claro que a graça de ir pra Porto Alegre é parar no 86 pra esticar as pernas e reclamar do preço das coisas. E a graça de ir pra Floripa, logicamente, é ver a ponte Hercílio Luz dando boas vindas enquanto o ônibus contorna as bandeiras gigantes ilhadas naquele laguinho perto do terminal Rita Maria. Que sempre chamo de Maria Rita antes de cantarolar “o trem que chega é o mesmo trem da partiiiiida...”

O bom de viajar sozinha é simplesmente aproveitar aquelas horas pra ficar de boa, vendo a paisagem, curtindo as musiquinhas...

O ruim é não ter alguém pra te dizer que você está dormindo com a boca aberta (e geralmente babando) há algum tempo. Ou ter que ir no banheiro e deixar a bolsa sozinha. Mal dá pra se segurar em pé em banheiro de ônibus, levar a bolsa junto, então...
Xixi no pé é pouco.

E ainda o velho medo de quem sentará ao seu lado.

(   ) Um senhor tagarela que ignora seus fones e puxa assunto reclamando que esqueceu o remédio da pressão, resmungando sobre doenças e falecidos o caminho todo, enquanto você balança a cabeça e diz “pois é”, “complicado” e “aham”.

(   ) Uma criança que não conseguiu lugar ao lado da mãe e que passa o caminho todo comendo Cheetos bola, limpando o nariz no estofamento da banco e te encarando pra ver se você olha. Meu modo pacífico vira pra janela e a ignora. Mas se ela der o azar de me encarar naquela semana do mês... Devolvo o olhar com a mesma intenção (e com a minha melhor cara de má) até ela piscar e sair resmungando “manhêêê...”

(   )  Qualquer pessoa, de qualquer gênero e idade, que esteja com odores desagradavelmente invasivos.

(   )  Uma outra pessoa com fones de ouvido e/ou livro, que lhe cumprimenta com um sorriso e coexiste em harmonia até que o ônibus chegue ao seu destino.


A última opção é um presente que o acaso lhe dá, derivando da sua escolha de empresa de ônibus, horário escolhido e destino da viagem. Não tão raro pra ser tipo Mega Sena. Mais pra Quina...

Hum... viajei tanto no texto que perdi o ponto pra descer na parte certa onde ele se encerra. Vou puxando a cordinha por aqui mesmo. Tenho que pegar o Vila Zuleima, que deve estar saindo do terminal central de Criciúma nesse momento.

Continuamos a conversa depois...

Mas a janela é minha.

20.9.12

Olhares castanhos, estranhos sinais


Por Carol Grechi



Baseado em uma história (quase) real

***
O sono era tão forte que as tarefas agendadas para aquela tarde pareceram perder a urgência. A tempestade castigava a casa com o vento e do céu escuro vinham as  gotas que batucavam no vidro da janela.  Com a promessa de que iria apenas deitar um pouco para descansar, ela adormeceu.

***
Lara se viu correndo por uma floresta, rodeada pelos tons de um outono com temperatura agradável. Foi reduzindo a velocidade ao entrar em uma grande clareira, com casas rústicas formando um complexo de pousadas em meio à natureza. Uma mulher de meia idade com credenciais penduradas nas mãos lhe reconheceu enquanto lhe entregava uma.

- Achei que tu não vinhas. Tu és do jornal, não?
- Sim. – Respondeu a garota ainda recuperando o fôlego, enquanto estendia o braço para apanhar o crachá de imprensa.

Caminhando com curiosidade, aproximou-se de um pavilhão de madeira que ocupava uma grande extensão a sua direita. Chegando à porta viu umas sete pessoas, todos jovens e conversando, indiferentes aos dois homens que entravam no local. Eram eles a razão de ela estar ali.

Aproximou-se com uma folha em branco e uma caneta em mãos, olhando para o primeiro que entrava.
- Um autógrafo, Gues?!
Dos olhos azuis ela recebeu um sim, mas, o produtor que vinha logo atrás sentenciou um não ao apressar o músico para que entrasse. Logo adiante vinha ele.
- Dek, um autógrafo, por favor...
Os olhos castanhos que ela tanto conhecia demoraram-se nos dela.
- Tem muita gente... – respondeu se desculpando. A frase pareceu ter certa comicidade, levando-se em conta que o “muita gente” referia-se as indiferentes sete pessoas em volta.
- Mas só eu estou te pedindo. – Lara sabia ser teimosa.

 Um sorriso contido começava a brotar no canto esquerdo dos lábios dele enquanto começava a escrever algo na folha em branco. O produtor lançou um olhar de urgência pela porta. Dek a encarou com uma expressão indefinível e a segurou pelo braço com delicadeza, conduzindo-a para dentro do local junto com ele.

Algumas mesas de madeira estendiam-se ao longo daquele salão rústico, com bancos compridos, também de madeira. Gues estava sentado sozinho na ponta de uma das mesas. Dek sentou ao seu lado e convidou Lara a se acomodar em frente a eles.

Começaram a conversar sobre música e sobre o local, uma conversa com risadas, agradável e natural.
Dek fitava Lara com uma intensidade desconcertante.  Um meio sorriso sempre nos lábios.
- Tu te lembras dela nos shows? – Perguntou a Gues que brincava com uma palheta entre os dedos.
- Hummm... Não... – respondeu em tom de desculpas enquanto Lara sorria.
- Eu lembro.

Apenas essas duas palavras fizeram os batimentos cardíacos da menina dobrarem de velocidade, impossível refrear os efeitos daquele olhar repleto de mistério e cumplicidade.

Com a boca seca, Lara olhou para Gues e enumerou os shows em que havia ido, as cidades e as situações em que haviam se visto. Sentindo um desconforto de talvez estar sendo inconveniente, ela perguntou se eles ficariam por mais algum tempo ali. Gues respondeu que sim e lhe convidou para lhes fazer companhia até irem embora.

Ela olhava para Dek e não conseguia parar de sorrir. Os músculos da face já estavam em cãibras e nos olhos brotavam pequenas lágrimas de satisfação.
- Ainda não acredito que finalmente estou conversando contigo. – Disse a ele meio sem jeito.
As mãos que tanto ela admirava, dominando com maestria as cordas de guitarras e violões, as mãos que um dia lhe entregaram uma palheta após uma canção, essas mãos avançaram por sobre a mesa e lentamente seguraram as suas. O toque macio veio acompanhado de um sorriso com ares de ternura. Para a surpresa dela o contato não se desfez, ao invés disso ele acariciava suavemente a pele clara de sua mão, com o dedo polegar desenhando retas contínuas e ternas.
- Obrigada mais uma vez... Não sabe quanto tempo eu esperei por esse dia. – Ela ainda conseguia falar com a voz falhando.

Dos lábios dele, veio a tradução do que olhos diziam a ela desde que haviam entrado no local.
- Como dizer não com esses teus olhos, com esse teu jeito todo charmoso de olhar... ?

Ela sentiu na hora. Sentiu o clima se tornando mais palpável entre eles. Sentiu a pele arrepiar e a confusão tomar conta de seus pensamentos. Pensou em Fred, seu namorado, e teve a certeza de que jamais o trairia. Olhou para as duas esferas castanhas e brilhantes que ela tanto conhecia, dos DVDs, da televisão, dos shows... Sempre soube que se entendiam pelo olhar, mesmo sem terem trocado uma única palavra. Aqueles olhos agora estavam ali, lhe sorrindo com ar de marotos...

A vontade de realizar um desejo até então platônico e a fidelidade para com seu amor... Ali, lado a lado, brigando por um espaço em sua mente confusa e dividida.
Alguém da produção chamou Dek à porta, ele largou as mãos dela devagar, sempre sorrindo com ar travesso, e se dirigiu à entrada do salão.

Lara baixou os olhos para a o local em que a pouco ele acariciava. Suas mãos ainda guardavam o calor dele. Ao levantar os olhos, deparou-se com a imensidão azul do olhar de Gues, com um sorriso de compreensão e consolo.
- Eu percebi a tua hesitação, te entendo, sei o que tu estás sentindo. Também sei o que tu vais escolher. – Disse indicando com a cabeça a aliança de prata na mão direita da menina. – Deixa que eu vou falar com ele.

Saíram os três, acompanhados por um integrante da equipe de produção, para desbravar o local. Era lindo, com folhas secas dançando e farfalhando com o vento levemente frio. Riam das mesmas piadas, entendiam-se sem falar, um desfrutando da companhia do outro. Mas Lara ainda sentia o calor nos olhos de Dek. Entendeu o que ele ainda queria.

Entraram em uma casa grande, também de madeira, como tudo ao redor. Dois andares, escadas bonitas, quartos enormes. Ficaram em um deles, que ocupava quase metade do segundo andar. Gues brincava com o rapaz da produção, alguma implicação quanto a times de futebol, pois entre as risadas nenhum dos dois desistia de zombar do outro. Lara acompanhava a teimosia de ambos e ria... Feliz de estar ali.
Ela desviou o olhar do embate futebolístico e seus olhos pousaram na cena que jamais lhe sairia da cabeça. Dek estava deitado em uma das camas do quarto, uma cama enorme com um edredom branco, alvíssimo. Em contraste com o fundo claro ela podia ver com ainda mais nitidez a cor de seus olhos, que acompanhados de um sorriso tão branco quanto a coberta da cama, lhe diziam muitas coisas.
Aqueles olhos estavam lhe convidando. Lhe provocando. Mais uma conversa sem palavras, algo que os dois entendiam desde o primeiro show em que se viram.

Uma agonia tomou o peito da menina. O peito, a mente, a respiração... Tudo pareceu descompassar. Naqueles segundos em frente à cama, percebeu que estava tremendo. Não conseguia pensar direito, só de imaginar...

Com uma dorzinha latejando no peito (e em vários outros lugares do corpo) ela sabia que não seria capaz de dar um passo a frente. Fred era quem amava, nunca nem sequer pensou em traí-lo, tão abominável e estúpida lhe parecia a idéia. Agora estava ali, naquela “prova de resistência” silenciosa.
Depois de alguns minutos que pareceram durar uma eternidade, ele levantou-se e sorriu ainda mais ao passar a centímetros dela.

Ainda riram mais um pouco da interminável discussão entre Gues e o amigo, que davam voltas na conversa e acabavam parando novamente no duelo de seus times. Dek ainda olhava Lara com ares de carinho, parecendo se conformar com a situação de “quer, mas não quer”... Seus olhos se demoraram alguns segundo na aliança dela, e ao fitar mais uma vez aqueles lábios fartos, nariz pequeno e olhos negros de cílios longos, ele piscou devagar e balançou a cabeça lentamente, como que compreendendo.

Na hora de se despedirem, em meio ao bosque e às folhas sépia, Gues abraçou Lara com carinho, e disse que havia se divertido muito na companhia dela, adorou as conversas e adorou conhecê-la.
Enquanto isso a alguns metros, Dek pegou um pequeno spray em seu bolso e borrifou em si mesmo disfarçadamente. Quando Gues afastou-se de Lara, ele veio em direção a ela, ainda com aquela intensidade muda.

Dek aproximou-se bem de Lara e lhe envolveu em um abraço apertado e acolhedor. Ela ficou anestesiada com o perfume que ele colocara, o cheiro parecia lhe prender, revirava seus sentidos. Ela teve consciência do calor “a mais” naquele abraço que nenhum dos dois interrompia. Poderiam ficar ali, num ciclo eterno de troca de sentimentos que não precisavam ser pronunciados ou explicados.

Com as pernas meio bambas ela precisou de muita força e determinação para afrouxar o abraço e encará-lo mais uma vez. Aqueles olhos... Atravessaram-na e lhe falaram com uma voz doce que só ela podia ouvir, em um lugar que só ele tinha acesso, em algum lugar guardado na mente de Lara. O que ele disse ficou gravado ali, mesmo após o sonho ir se diluindo, tornando as imagens mais fracas e o rosto de Dek mais distante.

***
Ela abriu os olhos lentamente, acordando com um sentimento confuso, aliás, com vários...
Queria não ter acordado tão cedo, ainda podia sentir os acordes do perfume que lhe embriagou. Lembrou do quanto se divertiu com Gues e, do calor daquele último abraço com Dek, apertado e demorado, lento na medida certa... Com mil intenções...

Lembrou-se do carinho em sua mão, do clima que a atordoava, dos olhos que a queriam e sorriam zombando... Dizendo que sabiam dos sentimentos dela, sempre souberam...

Mas acima de tudo, ela lembrou-se de como tinha certeza de que, um intenso momento que desejava não era o suficiente para vencer a vontade de passar a vida inteira ao lado do homem que amava. O futuro pai de seus filhos, quem lhe ensinou as maravilhas e as dificuldades de se amar alguém...

Voltou ao momento mais decisivo do sonho, onde teve a certeza de que não conseguiria fazer nada, uma certeza tão grande que logo cortava o “e se...”.

“E se” ela tivesse sentado ao lado de Dek, lá deitado, sorridente e provocante, na cama branca?
Sua imaginação não conseguia ir adiante. Só havia um espaço vazio após esse “e se...”.

O amor de verdade competiu em sonho com o “amor” de mentira... E venceu.

Ela sempre soube que seria assim.
No mundo real seu amor era indiscutível... Inabalável.

No mundo dos sonhos, alguns bons momentos já eram o suficiente.

***