9.4.10

Certos costumes...


Por Carol Grechi

Engraçado como tu acaba te acostumando com certas coisas. Morando no Arroio do Silva me acostumei com a falta de oportunidades quanto a emprego, me acostumei com aquele cheiro de marisco (conhecido como maresia), acostumei com a solidão invernal (que já começou) e acostumei com o silêncio. Ah, pois é.

Neste momento estou escrevendo no quarto do meu namorado, em Criciúma, com a janela aberta. Ouço uma máquina de jato de água, uma moto barulhenta, um carro barulhento, um ônibus (que é naturalmente barulhento), o cachorro do vizinho numa espécie de choro melancólico, e mais alguns sons que não consigo destinguir.

Pela manhã a coisa é mais complicada ainda. Lá pelas 8, a vizinha de três casas pra esquerda, liga o som bem alto numa daquelas músicas de adoração, religiosas. Nada contra, normalmente. Mas as 8 da manhã tu acordar com um "vaaaaai mudaaaaaar, eu sei que a tua viiiida vai mudaaaaaar", é tudo contra, realmente.

Aí o primeiro vizinho da esquerda, justamente onde fica a única janela do quarto, começa a discutir com a mulher pra saber quem fez aquela conta na loja tal, que mandou o carnê hoje. E a discussão vai longe, chega filha, chega sogra, chega o cachorro do choro melancólico, todo mundo dizendo "não fui eu". Só não consigo ouvir o final dessa "novela"porque o padre não sei o quê, agora ta berrando mais alto ainda que "o Senhor é o meu bem maior, faz um milagre em mim". Pelo menos não é a versão em pagode. Amém por isso.

Bom, na praiota onde moro não tem nada pra fazer. Mas isso até que é legal (neeeem sempre, mas é) porque exige mais da tua criatividade. Já pintei duas camisetas e aprendi a tocar "Detalhes"do R.C. no violino (maliporcamente, mas sai). Aliás, ainda bem que não tenho vizinhos (são casas de veraneio, dos dois lados), porque um deles poderia estar escrevendo uma crônica sobre o barulho infernal de um violino maliporcamente tocado por uma das vizinhas.

Ah, no Arroio quando passa um carro na minha rua, quase que automaticamente eu e a mãe olhamos pela janela. De cada 3 que passam, (por dia) 1 para. Geralmente é a minha tia. Aqui se fosse olhar cada carro que passa, perdia o pescoço.

É... Pra quem sempre quis viver no meio do vuco-vuco, gostar do silêncio e da calma do Arroio do Silva é meio estranho... Acho que to ficando velha... Ou valorizando outras coisas... Não sei, mas sei que hoje descobri que foi a filha da vizinha quem comprou um celular na loja tal. O vizinho disse que ela vai se virar pra pagar, porque ele nao quer saber de outro carnê da loja tal. Desgraçada loja tal, ainda vai me render muitos domingos sem sono matinal.

*Rima desproposital.